Quando um acaba dançando…

nietx    Nietzsche tinha uma visão menos generosa da natureza humana, além de não acreditar em deuses que dançam. Ele argumentava que a adversidade alheia era uma fonte importante de prazer. Entretanto, segundo seu ponto de vista, observar passivamente a adversidade alheia fornece um prazer diferente do que causar essa adversidade ativamente a outra pessoa, por meio de algum tipo de atitude competitiva. Será que Nietzsche estava correto? Talvez tentado encontrar esta resposta poderemos investigar onde se encontra os limiares da “Schadenfreude” e de outros sentimentos não tão nobres, porém bem frequentes na calada do consciente humano (algumas vezes tem tão na calada assim). Um artigo publicado na revista  “Frontiers in Psychology”  realizou a primeira comparação empírica entre observar passivamente (Schadenfreude) e causar ativamente (ter prazer, regozijar-se) com a pimenta que caiu no olho do camarada. O artigo intitulado “Analisando (maliciosos) prazeres: schadenfreude e gozo com a adversidade alheia” de autoria de Leach, Spears & Manstead (2015), vai além, ele faz uma distinção detalhada entre todas as formas de se divertir as custas da miséria alheia. De acordo com os autores as distinções entre Schadenfreude e gozação podem ser conceitualizadas em termos de (1) características do evento, (2) avaliações do evento, (3) experiência de prazer e (4) expressão de prazer, conforme a tabela abaixo.

Distinções conceituais entre schadenfreude e gozação (gloating), segundo Leach et al. (2015)

Schadenfreude Gozação
Características do evento
Competição Indireta, moderada Direta, alta
Comparação Moderada Moderada
Benefício Próprio Indireto, moderado Direto, alto
Ponto de vantagem Observador (passivo) Ator
Apreciação
Agente Externo Interno
Poder Baixo Moderado a alto
Status Moderado Alto
Performance Moderado Alto
Experiência de prazer
Grau de prazer Moderado Alto
Atividade Moderada Alto
Enlevação Alto
Triunfo Alto
Encorajamento Alto
Expressão de prazer
Suprimida Expressa
Privada Pública
Riso Moderado (suprimido) Alto
Celebração/alegria Baixa a moderada Alto
Ostentação/alarde Baixo a moderado Alto

    Obviamente o detalhamento destas características não veio aqui para te aliviar de ter rido de mim quando cai no meio da rua, mas talvez para servir de alerta sobre o quanto estamos suscetíveis a passar desapercebido por certas atitudes que temos no dia a dia e que podem gerar algum desconforto, sobretudo se direcionada para pessoas com as quais convivemos no dia a dia. “Tirar onda” ou fazer gozação do outro  segundo os autores é um prazer muito diferente. Trata-se de uma superação direta e ativa de outro partido, que esta ali para testemunhar o prazer de sua própria derrota. A gozação não é apenas uma maior experiência de prazer. Em contraste com Schadenfreude, seu resgate é experimentado como uma revigoração física e uma elevação do estado de espírito (de porco, cá entre nós). As pessoas irradiam uma sensação de “caminhar no ar”, acima de seus rivais derrotados. Por outro lado, um pequeno sorriso, e uma satisfação silenciosa, é tudo o que as pessoas parecem obter de Schadenfreude. As muitas distinções observadas entre Schadenfreude e regozijo ilustram as formas em que a experiência emocional e expressão está situada nas relações sociais. Apesar de serem primos íntimos dentro da família mais ampla de prazeres e irmãos dentro da família de prazeres na adversidade de outros, regozijar-se e schadenfreude são maneiras muito diferentes de se relacionar com o mundo social.

   Por estas e outras algumas coisas ficam mais claras no cenário politico brasileiro:

Nesse caso da deputada petista Angela Guadagnin, famosa pela “dancinha da pizza” as palavras de Nietzsche (1967) soam como pérolas: “To see others suffer does one good, to make others suffer even more: this is a hard saying but an ancient, mighty, human, all-too-human, principle to which even the apes might subscribe”.

(“Ver os outros sofrerem faz bem, fazê-los sofrer mais ainda: é ditado difícil de se dizer, mas é um principio antigo, poderoso, humano, humano demais, no qual até os macacos podem aderir” – a nobre ex-deputada quem o diga)

 

Leach, C. W., Spears, R., & Manstead, A. S. R. (2015). Parsing (malicious) pleasures: schadenfreude and gloating at others’ adversity. Frontiers in Psychology6, 201. http://doi.org/10.3389/fpsyg.2015.00201

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Schadenfreude é ciência!

E pensando nisso, desenvolvemos o questionário abaixo. De que forma a schadenfreude permeia a vida pessoas? Esperamos que o número de respondentes nos ajude a entender melhor esse sentimento, prá lá de meândrico.

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‘Schadenfreude’..Oh, me desculpe, você sabe o que essa palavra significa? – Karma.

Schadenfreude: O que isso tem a ver comigo?

Fat(u)alidades

limaoO sentimento de hoje é o de “toma lá dá cá”. É como  espremer o limão num copo pra preparar aquela caipirinha que vai te alegrar o dia e o suco dele sair “de reverso” e vir parar no seu olho. Sabe como é? Eu sei, já aconteceu (várias vezes) comigo. Existe uma larga indústria caseira de momentos schadenfreude que acontecem por aí, e suas centenas (ou mais) de vídeos vão ao ar diariamente e são visualizados milhares de vezes. As pessoas se acostumam a isso. Não é à toa que programas como Jackass, e os canais Funnyvideos e o politicamente incorreto “Narrador de vídeos” fazem tanto sucesso. São a versão moderna – pero con dolor – das comédias pastelão tipo “Gordo e Magro”, “Charles Chaplin” e “Três Patetas”, que fizeram sucesso do início dos anos de 1930 até após 1960. Acredite que isso remonta a origem do riso, que veio bem antes da época das comédias Shakespearianas.  Estudos revelam que a schadenfreude tem a ver, lá no fundo, com sentimentos que envolvem “competição” e “autoestima”, pois as sociedades humanas são baseadas em competição e comparação. Quando você vê alguém falhando,  automaticamente seu cérebro te recompensa com um: “Opa – estou melhor que ele”!

Esse prazer “schadenfreude” é mais intenso ainda quando a pessoa que se lasca é arrogante, merecedora e sobretudo, se ela for muito bem-sucedida.

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Simpatia não é a marca registrada de alguns candidatos a schadenfreude

É por essa razão que notícias de celebridades que se dão mal chamam atenção da mídia e lucram tanto. Se você pensar em times de futebol ou outro esporte pelo qual surgem torcidas organizadas, fica mais fácil ainda entender que esse sentimento também aparece, sobretudo devido ao nosso desejo que o time adversário falhe (mesmo que não esteja jogando contra o nosso), e somos mais suscetíveis à schadenfreude quando ele perde. É difícil não rir de uma compilação de pessoas que caem naturalmente, ou que por conta da autoestima em excesso, fazem brincadeiras “inocentes” e acabam sendo vítimas da própria idiotice.

Certamente isso não fazia parte dos “paranauês”

Mas a schadenfreude, segundo alguns autores, torna-se particularmente venenosa quando se encontra com a política. Se a schadenfreude é um aspecto presente em grupos partidários de “situação e de oposição” e que competem politicamente, não deve surpreender que isso piore, sobretudo quando o poder se concentra em partidos políticos onde vitória em um dos lados instantaneamente signifique uma ameaça para o outro. Artigos científicos comprovam que filiação partidária e a intensidade da identificação do grupo com o partido predizem fortemente se os eventos políticos irão produzir schadenfreude em seus membros. Basta ver quando o membro de algum partido contrário comete alguma gafe que o sentimento imediato dos opositores é o de schadenfreude.

 

Mas nem tudo é graça. O pior desta situação é que a política está diretamente ligada tanto ao bem-estar quanto ao sofrimento de milhares de pessoas.

Assim a falha de um grupo pode trazer péssimas consequências para todos. A descoberta mais perturbadora nestes estudos sobre schadenfreude é que: “Mesmo que um resultado possa ser objetivamente negativo para todos os envolvidos, incluindo para o indivíduo que acha graça, há momentos em que tal resultado aponte para uma vitória política potencial do grupo desse indivíduo que busca obter uma vantagem e, portanto, produzir schadenfreude” (Coombs et al 2009). Se serve de consolo, o fato é que a maioria das pessoas entende que esses sentimentos são socialmente inadequados, e por isso elas – se o sentem –  não falam abertamente sobre isso. Os estudos também relatam sentimentos schadenfreude na política para notícias objetivamente ruins, como uma desaceleração econômica prejudicando o partido oposto, e que são profundamente ambivalentes em quem os sente, ou pelo menos, costumam ser.

 

A ambivalência da schadenfreude em grupos políticos, segundo Coombs et al. (2009) é que em algum nível, por mais insignificante que seja, existe uma crença de que lado oposto está tentado ajudar, mas está fazendo isso do jeito errado.

Não sei nos idos dos anos 1930, mas atualmente alguns políticos são altamente suscetíveis a schadenfreude. Veja o caso de Donald Trump. TrumpBlowingKissEle preenche particularmente todos os pré-requisitos: ele é arrogante, bem-sucedido, milionário, merecedor, e abertamente se sujeita ao ridículo por conta própria. Ele oferece aos Estadunidenses a oportunidade de sentir schadenfreude sem culpa. E esse é o problema, até os apoiadores de Trump sentiram prazer em fazer isso, assim como os seus oponentes, pois era apenas como ver mais uma compilação de falhas engraçadas assistir Trump e seu rol de comentários apelativos um atrás do outro durante sua campanha. O que parecia uma schadenfreude pouco perigosa, virou um prato cheio para a mídia, pois cada registro, cada visualização,  foi registrada como interesse e o resultado foi que ele deu um looping de audiência entre todos os demais candidatos a presidente pela quantidade de mídia cobrindo sua campanha, o tornando o foco de tudo.  Pode ter sido a primeira vez na história dos EUA que o schadenfreude coletivo influenciou um resultado político e isso agora não é uma piada.  giphy (1).gif

Agora estamos vivendo uma mistura intoxicante de política de entretenimento, jornalismo e schandenfreude e que é incrivelmente boa para os meios de comunicação. No caso dos Estados Unidos, quanto mais Trump é envolvido em problemas com a Rússia, mais a mídia mostra seu lado bom e seu lado ruim, e com cada nova “revelação bombástica” a schadenfreude fica mais forte e, sob esse incentivo, fica mais difícil para os executivos por trás da mídia resistirem. Se Trump cair, vai ser uma alegria para uma parte da população que acredita que ele mereceu. Seja lá o que acontecer com esse presidente é preciso entender que a schadenfreude é uma droga que devemos “manter sob controle”. Tal qual outra droga, um aumento na tolerância significa um aumento no desejo de mais, e com mais frequência. E isso – esperamos –  que não seja a força que queremos dar para o empoderamento de nossos políticos. Ou será que já demos?

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Fontes: https://psychology.as.uky.edu/sites/default/files/combs_et_al_%202009.pdf

thenerdwriter.net

Instant Karma

 

O cão que você alimenta e te morde

O décimo de ponto que faltou na nota

O cocô que grudou na bota

A festa open só de pagode

O sinal que some

O pão que faltou na hora da fome

Lennon era um cara bacana

Hoje, seria mais um artista indo em cana

Coisas que acontecem no instante de um segundo

Duram a eternidade de uma alma

Quando fazem de você, piada pro mundo…

É Karma…

Calma.

Better get yourself together – we all shine on. Like the moon and the stars and the sun

Afinal até hoje ninguém quer, nem tem porque explicar o que a Yoko quis dizer tricotando…

 

A cadeira do dentista

Sim, certamente sua mãe falou inúmeras vezes para você escovar os dentes, minimamente 3 vezes ao dia se ela é daquelas mais tradicionais; após todas as refeições se era uma ortodoxa com ações da Unilever®. Mais aí quando você começou a ser dono de seu nariz, e consequentemente da boca, de vez em quando dava aquelas “escorregadas básicas” – ou porque estava com sono demais, ou porque estava com pressa demais, ou porque era domingo. Afinal, domingo é dia de folga.

Depois se você entrou na faculdade (ou por alguma razão saiu da casa de “mamã”) o risco de que a autonomia seja inversamente proporcional ao uso da pasta de dentes é maior – assim como aumenta a probabilidade de que a sua aproximação mais intensa com ela ocorra algum evento festivo, acordando ardido até no “tucupi”. Acontece…nesses ambientes ninguém usa Tandy. Keep walking, but watch yourself* para não virar propaganda.

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Por que chegar a esse ponto? Porque certamente, se você não seguiu as regras da boa escovação, ou por algum infortúnio genético tenha ido parar na cadeira do dentista, vai entender a razão desta postagem.

O dentista (com o devido respeito e carinho a tod@s profissionais dessa área) deve rir em algum momento de sua desgraça! Se não porque seu infortúnio é lucrativo, vai rir porque no mínimo deve ser patético (para quem vislumbra a cena) ficar ali por pelo menos meia hora de boca aberta a mercê de uma mão estranha e toda sorte de instrumentos sendo enfiados ali – de broca, tubo de sucção a luzes por todo lado. E ele lá, futucando sua dor. Nessas horas você lembra da sua mãe, das noites que chegou catando cavacos e nem sabe como (e se) chegou na cama, de tudo que meteu na boca desde a infância (…pausa para a licença poética). Bobear até está com inveja das aves que nasceram sem dentes e ainda assim se alimentam. Você por um momento até desejaria ter moela pra triturar o que come sem sentir dor.

Eu estava ali de boca aberta, com as articulações doendo. O motivo nem era tão grave, uma coisa de rotina. Antes, porém eu já havia sido “esfoliada” pela cureta. Que só pelo nome já arrepia. Doeu. Sangrou. A cada raspada para inspeção de cada dente prospectando uma cárie ou sujeirinha acumulada por culpa única e exclusiva minha, meu amigo fio dental vinha a minha cabeça. Ah, meia hora de dedicação que não tive a meus dentes! Então veio a anestesia, um monte de algodão na boca, aquele barulho da broca que não entendo até hoje, 4.589 mil anos depois da invenção da dita cuja, nenhum engenheiro foi capaz de trocar o lado do disco daquilo (zzzzzzzzzzzziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii).

E claro, o clímax do momento, quando pergunta @ dentist@: -Tá doendo??? E você: Unarhuarhahrnahruahn! E o comentário solidário (entre risos): -Ah aqui a gente não aprendeu essa língua não… E você pensa: Schaaaaaaaaaaaaade (“droga”= 💩). Quatro horas depois (nesse exato momento) estou aqui com a bochecha toda cortada, a língua em estado deplorável. Só pode ser masoquismo meu. Uma pequena loja de horrores para uns, diversão para outros.

Quando o amendoim desce torto…

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“A dor parece ótima em outras pessoas”.

Lili “The Master” Schadenfreude


     Já dizia Schopenhauer – sentir inveja é humano, saborear schadenfreude é diabólico. Mas no campo dos relacionamentos, estes dois sentimentos andam de mãos dadas. Maior especialista no ramo, Marcondes Falcão Maia¹ usando seu melhor latim diria que “Lends Picantis In Anus Autrem Q’sucus Est”, e essa frase é o habeas corpus daquela terceira parte que aparece de vez em quando num relacionamento pré-existente – e fica de boas.

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Schadenfreude é: Ouvir sobre sua ruptura depois de anos assistindo você se gabar de seu relacionamento nas mídias sociais.

     Pois é, “Você meu amigo, que está sorrindo com o que eu passei; cuidado com a sua cabeça, pois amanhã será sua vez” (Falcão²). Quem nunca chorou por alguém, certamente não tem cotovelos. E quem já fez parte de uma quadrilha, certamente também bailou um forró arrochado e acordou com aroma catuaba na boca. Mais do que nunca, nos tempos em que “ninguém é de ninguém” o poema do Carlos Drummond de Andrade³, publicado em 1930 faz muito sentido. Só por favor, não se mate feito Joaquim, porque – desilusões à parte – a vida vale a pena. Você certamente vai rir disso tudo.

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      Cedo ou tarde você vai perceber que aquilo tudo não era tudo aquilo. 

    Mas o que vem ao caso no momento é aquela pergunta que não se cala nunca: Por que? Porque damos motivo ou viramos motivo de algum schadenfreude de plantão? Que formigueiro que sentamos já lá no ventre materno para que essa inquietação que se planta em nossa consciência feito “anjo demônio” uma hora apareça dizendo: tá bom…mas pode ficar melhor se (…use a criatividade). Fatalmente pelo menos uma vez na vida car@ amig@, lá vai você pra mais uma quadrilha. E doa a quem doer, alguém vai sair rindo nessa história. Lili quem o diga, que por fim encontrou um Pinto pra ser feliz.

Sentei aqui no banquinho da sessão “efeitozinho retardado” e comecei a botar a casa da memória em dia. Sim, eu já tive meu dia de Lili. Não lembro se gargalhei, mas que tive um prazer quase que (se não) sexual numa quadrilha – ah eu tive. E você? Conta pra gente?

Referências Externas ¹ Marcondes Falcão Maia (Pereiro, 16 de setembro de 1957), mais conhecido pelo seu nome artístico Falcão, é um humorista, cantor, apresentador e compositor brega notado pelo estilo irreverente e cômico.  ² Falcão (Marcondes Falcão Maia) – Trecho da música “Vida de Corno” in – 500 anos de Chifre. ³. Carlos Drummond de Andrade 1902-1987. Quadrilha – in: Alguma Poesia.

Danou-se…

…E de repente o chão vai embora…e quando você menos percebe sua dignidade foi juntamente com uns pedaços de sua pele. Orgulho mais ferido que os joelhos, mãos raladas, você talvez agradeça que a cara tenha saído ilesa dessa, se levanta e olha rapidamente em torno, segura que certamente uma plateia assistiu à cena. Se não fosse com você talvez você achasse graça, ou se compadecesse – dependendo de quem tenha sido a alma que a gravidade atraiu para o chão. Algumas vezes você torce secretamente que a alma saia para lá de ralada. Mas quando é comigo a primeira coisa que eu sinto é raiva. Raiva da calçada que se abriu na hora que eu pisei. Raiva do meu pé cujos tendões frouxos viram até quando caminho de chinelo. Mas quem nunca caiu no meio da rua que me passe a primeira rasteira. E quem nunca riu da desgraça alheia que anote seu nome na lista dos beatificáveis.

Existe uma palavra que qualifica esse sentimento – Schadenfreude: uma alegria ou prazer pelo infortúnio alheio. Não chega a ser um sadismo, que tem um quê de erótico – mas em bom português é um sentimento de escárnio temperado com um “bem feito” e uma pitada de “eu te avisei”. Já em 1853 Richard Trench¹ e colaboradores diziam “Que coisa mais medonha de se imaginar que uma língua possa possuir uma palavra que expresse o prazer que o homem sente para com calamidades alheias; a própria existência da palavra presta testemunho da existência da coisa. E mesmo assim em mais de um idioma tal palavra existe”.

Tanto existe, como foi fonte de estudos de Richard Smith, professor de Psicologia na Universidade de Kentuky, USA e autor do blog “Joy and Pain”². Ele publicou com outros autores o artigo “Politics, schadenfreude, and ingroup identification: The sometimes happy thing about a poor economy and death” ³. Lá eles relatam que as pessoas, quando sofrem alguma desgraça, quem as observa são simpáticas ao momento e expressam isso abertamente (Combs et al. 2009). Esta desgraça algumas vezes pode ser prazerosa, e desde a Grécia antiga até os dias de hoje, não há quem não conheça um exemplo de um momento tipicamente schadenfreude.

A palavra “Schadenfreude” é de origem Alemã: “Schade” significa dano, prejuízo e “Freude” significa prazer, alegria. Ainda de acordo com Combs et al. (2009) o schadenfreude é mais provável de acontecer quando quem está envolvido “merece” a desgraça, e sobretudo se são pessoas das quais não temos afinidade ou não gostamos. Menos apropriado ainda, porém altamente possível de acontecer é quando quem sofre a desgraça é alguém que invejamos.

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Tenho certeza que Donald Trump deu risada....

   Pois bem, vivemos em uma época onde #gratidão atingiu mais de 1 milhão de postagens no ano de 2016 quando escrita em português e muito mais do que 4 milhões com todas as suas variações. A humanidade parece estar entrando em seus eixos e eu fico aqui pensando com meu joelho ralado se “schadenfreude” esteja enfim entrando em extinção. Será?  Talvez exista de fato aquele coração caridoso que agradece ter tombado sob uma calçada lisa (#gratidãonãoeraparalelepídeo; #gratidãonãotinhacocô; #gratidãoocoposaiuileso), mas acredito que no fundo no fundo, aquela risadinha está ali (#kkk) ainda que contida, de celular em punho esperando a hora que seu #sambounocimento vai virar “trend topics” em alguma rede social. Afinal, onde é que não estamos ansiando por um “concreto no joelho alheio”?

  1. Trench, Richard C.; Mayhew, A. L.; Hunt, Theodore W. 1853. On the study of words. London, John Parker & Sons. 233 pgs.
  2. https://www.psychologytoday.com/blog/joy-and-pain (acesso em 15/06/2017)
  3. David J.Y. Combs, Caitlin A.J. Powell, David Ryan Schurtz, Richard H. Smith. 2009. Politics, schadenfreude, and ingroup identification: The sometimes happy thing about a poor economy and death. Journal of Experimental Social Psychology 45: 635–646